LEDA YARA MOTTA MELLO - CRT 41601
Terapeuta Holística

COMENTANDO OS JOGOS NOSSOS DE CADA DIA

Postado por LEDA YARA MOTTA MELLO (41601) em 25/03/2009 às 18:59
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COMENTANDO OS JOGOS NOSSOS DE CADA DIA
Lêda Mello
 
 
     Não é fácil, em poucas palavras, comentar os jogos usados no dia a dia das pessoas. Na maior parte do tempo elas estão jogando e tantos são os jogos que, neste espaço, pretendo, apenas, levar o leitor a uma reflexão sobre o assunto.
 
     Os jogos psicológicos são manifestações tão importantes nos relacionamentos que o Dr. Eric Berne* dedicou um livro (Games People Play) inteiro ao assunto. Segundo a definição de Berne, um jogo psicológico é "uma série recorrente de transações, comumente repetitiva, superficialmente racional, com uma motivação oculta." Trocando em miúdos, o jogo psicológico manifesta-se através de uma série de ações que se repetem, processa-se em um nível superficial de consciência (não é inconsciente!) e esconde uma meta a alcançar. Os jogos psicológicos são aprendidos no ambiente familiar e passados de geração em geração, de tal maneira que não se sabe onde este ou aquele jogo começou.
 
     Quando nascemos, trazemos conosco cinco emoções básicas, que são: raiva, medo, tristeza, alegria e afeto. Elas foram incorporadas ao nosso DNA desde os longínquos antepassados, como ferramentas de sobrevivência. Por exemplo: não atravessamos a rua quando vemos um carro se aproximar porque sentimos MEDO de sermos atropelados.
 
     É a partir das experiências vividas com estas emoções que a criança vai elaborando o seu universo emocional, ou seja, vai adotando o que, no seu mundo mágico, considera ser a melhor conduta para sobreviver. Mais ou menos, aos 7 anos de idade a criança já vivenciou experiências com estas cinco emoções e tomou decisões que levará para o resto da sua vida. Significa dizer que aquela criança que fomos um dia continuará conosco até o final, levando consigo todo o aprendizado emocional e social da sua infância e repetindo as "lições aprendidas", a menos que procure e encontre meios para redecidi-las.
 
     Da mesma forma que nos jogos recreativos, o jogo psicológico funciona com parceiros, regras, sequencia (começo, meio e fim) e, finalmente, o resultado, uma espécie de ajuste de contas, com um ganhador e um perdedor. É neste final que reside o perigo. Ninguém gosta de perder!
 
     Segundo Jack Kaufman, "um jogo representa um padrão de comportamento repetitivo". Mary Goulding prossegue o raciocínio afirmando que "cada pessoa extrai um prêmio que é só seu e que ele é uma repetição de importantes situações não resolvidas no passado". E, finalmente, o casal Robert e Mary Goulding completa o pensamento quando afirma que "para nós, um jogo é uma série de transações que terminam com um dos parceiros se sentindo mal ou sendo ferido de algum modo."
 
     Numa relação equilibrada, honesta, isenta de jogos, não há perdedores. Todos ganham e, obviamente, a satisfação é partilhada e até mesmo quando se torna necessário que se faça um ajuste na relação, tudo se processa de forma harmônica e satisfatória para as partes. Trata-se de um ajuste real, limpo, em direção ao crescimento mútuo. Quando há jogo, esse ajuste, ao invés de mudar o que se faz necessário, marca o reinício de mais uma série de ações  que se repetirão indefinidamente ou até que um dos parceiros saia do jogo.
 
     Tudo começa na infância. Nos primeiros anos de vida a criança é honesta. Ainda não está contaminada e o padrão existencial do seu universo é do tipo "Eu sou boa e o mundo é bom." À medida que vai crescendo, situações vividas no ambiente familiar vão modificando seus conceitos com relação a si mesma e aos outros. As repetidas situações em que se sente inadequada e a maneira como as figuras parentais se comportam nessas situações acabam levando a criança à conclusão de que ela não é tão boa assim. A estas alturas já se instalou o primeiro jogo: "O Meu é Melhor do que o Seu", de onde se originam todos os outros jogos. Na verdade, este jogo esconde o sentimento "Eu não Sou tão Bom quanto Você" e, enquanto o joga, a criança (de qualquer idade!) alivia o mal-estar decorrente deste sentimento. É um alívio passageiro e logo a criança volta ao sentimento antigo que, embora angustiante, oferece uma certa segurança. Esta é a essência de todos os jogos.
 
     Berne classificou em grupos os cerca de 36 jogos, de acordo com a situação em que ocorrem e lhes deu nomes engraçados que definem a característica principal do jogo. Alguns exemplos: "Bata-me!", "Agora te peguei, seu safado.", "Se não fosse por você...", "Veja só como me esforço!", "Não é horrível?", "Só quero te ajudar.", "Por que isto sempre me acontece?". Há ainda os jogos de "Polícia e ladrão", "Devedor", entre outros.
 
     Vejamos um exemplo de Jogo: João e Maria conhecem-se. João joga o jogo do "Mantenha o seu íntimo fechado ou acaba ficando na pior". Maria, por jogar um jogo oposto ao de João, tem potencial para ser uma excelente parceira de jogo para João. Encontram-se e, à medida em que vão se conhecendo, João vai revelando para Maria atitudes e conceitos que confirmam a possibilidade de iniciarem um jogo. Maria estava à procura de um João e João estava à procura de uma Maria, então começam o jogo. O jogo de Maria é no sentido de mudar o jogo de João e, para isto, joga com todas as cartas e aposta pesado. Algumas vezes, João resiste. Incomoda-se, ameaça sair do jogo, mas Maria conhece os pontos fracos de João, reforça as iscas e João continua a jogar. Um certo dia, João baixa a guarda. É a ocasião esperada por Maria. Ela projeta a mudança e, enquanto João "leva a pior", Maria entra em cena para recolher o prêmio. João continuará "levando a pior" porque o jogo não termina por aí. Embora aflorem angústias e insatisfações, a permanência na situação é reforçada por um pensamento do tipo "Pior sem ela". A parceria com Maria se tornou necessária para alimentar o jogo. Ambos, não são autênticos. Porque jogam, não são capazes de alcançarem o ideal de uma relação, que é a intimidade, mas a necessidade de jogar estabeleceu uma relação de dependência entre eles. Afinal, o jogo de um já é conhecido pelo outro e isto lhes dá uma certa segurança que, embora angustiante, confirma a posição existencial de um e do outro.
 
   Quem ganhou este jogo? João ou Maria? Nenhum dos dois. No jogo psicológico não há ganhadores. Há pequenas vitórias, ora de um lado, ora do outro, mas a batalha continua.
 
     O Triângulo Dramático de Karpman demonstra como não há ganhadores.  Karpman concluiu que cada jogo contém um elemento dramático e, assim na vida como no teatro, no drama, há troca de papéis entre os participantes. Neste Triângulo existem 3 papéis: o de Perseguidor, o de Salvador e o de Vítima.
     No jogo acima mencionado, Maria (Salvadora), depois de receber o prêmio, passa a exigir de João (Vítima) comportamentos que demonstrem a mudança de jogo planejada por ela (Perseguidora). João (Perseguidor) ensaia revoltar-se com a situação, o que fará com que Maria ocupe o papel de Vítima. Provavelmente, neste momento, surgirá uma nova personagem - parente ou amigo - (Salvador) que atuará na defesa de Maria e, ao mesmo tempo perseguirá João que retornará à posição de Vítima. Maria, então, salvará João e o jogo recomeçará. Como vimos, não há ganhadores quando se trata de jogos psicológicos.
 
     É possível sair do Triângulo Dramático. Entre as formas encontradas, fui buscar a sugerida pelo mestre Dr. Antonio Pedreira em seu livro Competência Emocional. Ele utiliza os 4 mitos do ser humano, descritos por Tarbi Kahler, correlacionando-os aos papéis de Perseguidor, Salvador e Vítima:
 
1º) "Alguém é que me faz passar bem"
     (Pensamento da Vítima em relação ao Salvador)
 
2º) "Alguém é que me faz passar mal"
     (Pensamento da Vítima em relação ao Perseguidor)
 
3º) "Eu posso fazer alguém passar mal"
     (Pensamento do Perseguidor em relação à Vítima)
 
4º) "Eu posso fazer alguém passar bem"
     (Pensamento do Salvador em relação à Vítima)
 
     "E chegamos à antítese destas falácias através de duas declarações de competência, autonomia e responsabilidade pessoal pelo seu bem-estar ou mal-estar, com as quais convivemos e adotamos, resguardando o limite da nossa integridade física:
 
     DESDE QUE NÃO ATINJA A NOSSA PELE,
- Ninguém, com o que faça ou diga, me fará passar bem ou mal.
    
     RECIPROCAMENTE
- Nada que eu diga ou faça fará o outro se sentir bem ou mal.
 
     Temos a opção de aceitar ou não o convite oferecido ao bem-estar - e compartilhar - , ou o mal-estar - e rejeitá-lo."
 
*Eric Berne - Psiquiatra, criador da Análise Transacional

Lêda Yara Motta Mello
Terapeuta Holística e Orientadora Educacional
Arapiraca (AL) - Brasil

ledayara@terapeutaholistica.com.br

http://ledayara.terapiaholistica.net/

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Comments

Jogos interminaveis. Por: Desconhecido on 10/04/2009 at 19:35
A estrada do auto-conhecimento é longa e complexa.Hoje tenho a consciênica de que há multidões que desconhecem o mundo psicológico em que vive.Somos arco-iris de nós mesmos.O arco-iris tem a capacidade de nos iludir.Parece que estamos chegndo a ele, mas não o encontramos onde pensávamos que estivesse.Aprendi agora,depois de tantos anos, que fui apresentado a mim mesmo há pouco tempo.Aprendi que os sentimentos de raiva e medo ficam guardados em um depósito chamado de subconsciente sem que sequer saibamos.Mas eles estão lá.Comparo com o ato onde uma pessoa,mesmo sem querer, desferiu um tiro em outra, o projétil ficou no corpo da vítima,sarou o ferimento,mas a bala continua dentro do corpo do atingido.Ele perdoa o atirador, mas a bala continua, um corpo estranho, dentro do seu organismo.Um dia ela vai exigir uma providência para desocupar aquele local.Assim são a raiva o medo e outros entes que introjetamos durante a vida.Refletindo sobre os jogos trazidos a lume pela Dra.Lêda Yara,acredito que todos vivemos, diariamente,imersos em verdadeiros cassinos psicológicos sem que percebamos.

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